Texto, em forma de discurso livre, proferido na conferência da manhã de espiritualidade quaresmal, na Catedral de São José - São José do Rio Preto, em 09 de Março de 2016.
Fontes:
Bíblia Sagrada
CPPNE. Os padres da Igreja e a Misericórdia. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2015 SESBOUÉ, Bernard. O Deus da Salvação - História dos Dogmas – Tomo I. São Paulo: Loyola, 2012
O Padres da Igreja e a Misericórdia
Pe Marcio Tadeu Reiberti Alves de Camargo*
Bom dia, Senhor Bispo, amados irmãos no sacerdócio, religiosos, religiosas e fiéis presentes nesta manhã de graça, no qual o Senhor nos preparou para, revisitar, ainda mais profundamente o seu amor, a sua misericórdia, que tema da nossa reflexão.
Procurando facilitar nossa reflexão partiremos da realidade que nos cerca, a experiência do hodierno, o evento Cristo e o estilo de vida cristão, os desafios impostos pela cultura no tempo patrístico (e de hoje), as Sagradas Escrituras - perene fonte da revelação, uma breve etimologia da palavra Misericórdia. A grande convocação a experimentar a Misericórdia e a ser misericordiosos... A fonte da Misericórdia na Liturgia e um breve aprofundamento na teologia da Misericórdia de Santo Agostinho.
Introdução
Parece-me bem claro que vivemos um tempo de intolerância. As instituições feridas e enfraquecidas, os poucos heróis de hoje mostram menos sua força de caráter e mais seus devaneios. O projeto de país mais igualitário se mostrou mais populista do que verdadeiramente do Povo.
A maioria dos brasileiros liga sua televisão, ao final do dia de trabalho, e encontra-se diante de julgamentos sumários - um helicóptero encena uma perseguição “hollywoodiana” e o apresentador força uma presunção de culpa imediata. Segue noite a dentro os telejornais insistindo que a corrupção pertence a um único partido. O desejo de eliminá-lo parece a solução e talvez se compare sentimento religioso sacerdotal que garantia que a morte de “Um” daria fim à todas a revoltas na Palestina.
Também, nós, enquanto Igreja, ainda não nos adaptamos à
contemporaneidade. Aquilo que o Papa Francisco afirmou no final de 2014 em uma
de suas falas à cúria romana parece-me senso comum: vivemos uma “esquizofrenia
espiritual”, “as rivalidades pela glória”, “a busca pelo poder”.
Na contexto da América Latina, “navegando” pelo Documento de Aparecida chegamos a perceber que ora fugimos para uma interpretação supra libertadora, quando a Libertação principal desaparece, ora embrenhamo-nos num falido proselitismo corporativo, próprio da Idade Média – uma Pastoral de manutenção.
Parece que o exemplo do Pontífice do “fim do mundo”, que se inspira no “il povero de Assisi”, o mais conhecido santo da Úmbria – que é centro do mundo na Idade antiga, Francisco, ecoa a voz profética para uma Igreja em saída e, se é possível resumir seu pontificado, afirmaria: Misericordia in vultum Ecclesiae est – A Misericórdia é, e sempre foi, o rosto da Igreja.
Por isso, a solução é revisitar nosso estilo de vida próprio: a Misericórdia!
1. Então, partimos da certeza que a Misericórdia é o verdadeiro fio condutor que liga a história da comunidade cristã, é o “estilo de vida” próprio do cristão.
Santos, gerações e gerações de mártires, desde de a origem da Igreja e, de maneira especial nos Padres da Igreja, dão forma a esse estilo cristão de ser com seu testemunho e se esforçam em explicá-lo.
Ser misericordiosos como o Pai (cf. Lc. 6, 36) é a tradução da verdadeira perfeição e da Santidade e, portanto, o caminho do seguimento de Cristo para os santos padres.
Acrescento: o mesmo Evangelho da misericórdia é um compromisso da Igreja nos tempos atuais e, por isso, a necessidade de entendê-la a partir dos Padres e da Tradição.
2. Não distante da nossa realidade, o padres encontraram, diante de sua missão, um mundo não cristão...
Como ainda há, sempre houve grande controvérsia no encontro da misericórdia cristã com as culturas pagãs.
Se visitarmos a cultura grega, encontraremos, especialmente nos poemas de Homero, a Misericórdia considerada como compaixão, “umas das virtudes mais nobres”, segundo o poeta, mesmo quando evocada num contexto de guerra, agindo assim para com seus inimigos, que não mantinham o sentimento recíproco.
Na contexto da América Latina, “navegando” pelo Documento de Aparecida chegamos a perceber que ora fugimos para uma interpretação supra libertadora, quando a Libertação principal desaparece, ora embrenhamo-nos num falido proselitismo corporativo, próprio da Idade Média – uma Pastoral de manutenção.
Parece que o exemplo do Pontífice do “fim do mundo”, que se inspira no “il povero de Assisi”, o mais conhecido santo da Úmbria – que é centro do mundo na Idade antiga, Francisco, ecoa a voz profética para uma Igreja em saída e, se é possível resumir seu pontificado, afirmaria: Misericordia in vultum Ecclesiae est – A Misericórdia é, e sempre foi, o rosto da Igreja.
Por isso, a solução é revisitar nosso estilo de vida próprio: a Misericórdia!
1. Então, partimos da certeza que a Misericórdia é o verdadeiro fio condutor que liga a história da comunidade cristã, é o “estilo de vida” próprio do cristão.
Santos, gerações e gerações de mártires, desde de a origem da Igreja e, de maneira especial nos Padres da Igreja, dão forma a esse estilo cristão de ser com seu testemunho e se esforçam em explicá-lo.
Ser misericordiosos como o Pai (cf. Lc. 6, 36) é a tradução da verdadeira perfeição e da Santidade e, portanto, o caminho do seguimento de Cristo para os santos padres.
Acrescento: o mesmo Evangelho da misericórdia é um compromisso da Igreja nos tempos atuais e, por isso, a necessidade de entendê-la a partir dos Padres e da Tradição.
2. Não distante da nossa realidade, o padres encontraram, diante de sua missão, um mundo não cristão...
Como ainda há, sempre houve grande controvérsia no encontro da misericórdia cristã com as culturas pagãs.
Se visitarmos a cultura grega, encontraremos, especialmente nos poemas de Homero, a Misericórdia considerada como compaixão, “umas das virtudes mais nobres”, segundo o poeta, mesmo quando evocada num contexto de guerra, agindo assim para com seus inimigos, que não mantinham o sentimento recíproco.
Platão, aproximando-se do estoicismo, que considerava a misericórdia “uma
doença da alma”, uma fraqueza humana, porque se opunha ao comportamento
guiado pela razão que anseia por justiça (retributiva).
Até no Século VII, final da era Patrística, o padre Isaac de Nínive, retomando o tema combatendo-o: “Se o misericordioso não superar a justiça, não é misericordioso”
Na retórica aristotélica acreditava-se na idéia que a misericórdia é a compaixão que uma pessoa tem por ter passado por um sofrimento sem merecê-lo, por isso se solidarizaria com aquele que sofre injustamente.
Cícero, vezes lembrado por Santo Agostinho e por outros Padres latinos, se aproxima do pensamento estóico (misericórdia=irracionalidade), mas tem respeito pelo homens misericordiosos.
Em contraponto, outras vozes patrísticas afirmam que o homem, criado a semelhança de Deus, tendo-se parecido mais com o inimigo, mesmo assim, Jesus assumiu, por misericórdia, a imagem do homem, vindo para junto dele, piedosa e misericordiosamente, expressa o doutor alexandrino Orígenes, que há de se lembrar que enunciou a heresia da impassibilidade(apatia) divina.
Em um texto correlato, de uma homilia patrística do Sábado Santo cujo autor é desconhecido, segue uma fala alegórica de Jesus: Vê no meu rosto as bofetadas que suportei para restaurar à minha semelhança a tua imagem corrompida.
3. A fonte de toda vida cristã, as Sagradas Escritura inspira e ilumina a vida da comunidade, que age, reza, celebra sob suas indicações é o mote da reflexão patrística.
Nessa dinâmica, o Deus bíblico aparece com frequência como “paciente e misericordioso” que esquece os castigos merecidos pelos infiéis...
Hereges, como Marcião, afirmavam que o Deus cruel do Antigo Testamento não podia ser o Pai de Jesus, tese que foi rebatida na afirmação da “Bondade Eterna de Deus” de Tertuliano, nos colóquios contra Marcião. (para aprofundar vide SESBOUÉ, Bernard. O Deus da Salvação - História dos Dogmas – Tomo I. São Paulo: Loyola, 2012)
Até no Século VII, final da era Patrística, o padre Isaac de Nínive, retomando o tema combatendo-o: “Se o misericordioso não superar a justiça, não é misericordioso”
Na retórica aristotélica acreditava-se na idéia que a misericórdia é a compaixão que uma pessoa tem por ter passado por um sofrimento sem merecê-lo, por isso se solidarizaria com aquele que sofre injustamente.
Cícero, vezes lembrado por Santo Agostinho e por outros Padres latinos, se aproxima do pensamento estóico (misericórdia=irracionalidade), mas tem respeito pelo homens misericordiosos.
Em contraponto, outras vozes patrísticas afirmam que o homem, criado a semelhança de Deus, tendo-se parecido mais com o inimigo, mesmo assim, Jesus assumiu, por misericórdia, a imagem do homem, vindo para junto dele, piedosa e misericordiosamente, expressa o doutor alexandrino Orígenes, que há de se lembrar que enunciou a heresia da impassibilidade(apatia) divina.
Em um texto correlato, de uma homilia patrística do Sábado Santo cujo autor é desconhecido, segue uma fala alegórica de Jesus: Vê no meu rosto as bofetadas que suportei para restaurar à minha semelhança a tua imagem corrompida.
3. A fonte de toda vida cristã, as Sagradas Escritura inspira e ilumina a vida da comunidade, que age, reza, celebra sob suas indicações é o mote da reflexão patrística.
Nessa dinâmica, o Deus bíblico aparece com frequência como “paciente e misericordioso” que esquece os castigos merecidos pelos infiéis...
Hereges, como Marcião, afirmavam que o Deus cruel do Antigo Testamento não podia ser o Pai de Jesus, tese que foi rebatida na afirmação da “Bondade Eterna de Deus” de Tertuliano, nos colóquios contra Marcião. (para aprofundar vide SESBOUÉ, Bernard. O Deus da Salvação - História dos Dogmas – Tomo I. São Paulo: Loyola, 2012)
4. Na tradição latina, Misericórdia é uma palavra antiga que compõe o binômio:
miséria e coração. Em grego (língua do NT) misericórdia é traduzida de eleos (Kyrie
eleison), na qual suplicamos a misericórdia do Senhor, que por sua vez traduz a
palavra hebraica hésèd (fidelidade da misericórdia de Deus) ou rahamîm (entranhas
do seio materno - útero).
Em latim a união de miséria – insuficiência, grave angustia, falta de dignidade, estar à margem da vida humana; coração – somado a “miséria” conota a miséria próxima do coração, sentida no coração. E tem como raiz: urere (queimar) – a miséria que queima no coração.
Fica-nos, claro, assim, expressar que Misericórdia traduz também um ato, é uma doutrina viva: o criador olha a criatura com misericórdia, reclina-se até ela, a socorre e anula no seu coração toda sua miséria. (Cristo, o rosto da misericórdia do Pai)
5. Mas, Misericórdia não é apenas um termo, é doutrina viva, pois somos todos convocados à Misericórdia...
Desde seu nascimento, no Batismo, os cristãos são convocados à misericórdia!
No tempo dos santos padres, os catecúmenos introduzidos à oração do Pai Nosso eram por ele educados para a misericórdia.
A convivência, a misericórdia recíproca, a realidade comum, a compreensão da vida comum era um sinal da misericórdia divina, pois um mal não recairia mais sobre um só – livrai-nos do mal... No tempos dos Padres essa era uma condição para a vivência da experiência pós-batismal.
A comunidade se descobria pecadora e, juntos, todos rezavam: Perdoai-nos as nossas ofensas...
A Misericórdia vivida fomentava a partilha de bens, que beneficiava não só os mais pobres mas, também, Igrejas irmãs. Inúmeros testemunhos relatam a caridade da Igreja romana à Igreja da Síria, da Arábia...
A esmola, com isso se torna, para a comunidade cristã, o sinal da misericórdia. Segundo Tertuliano, ela faz o cristão superior ao pagão.
De fato era comum na era antiga, os bispos com suas comunidades serem responsáveis diretos por inúmeras obras de caridade, que iam desde a ajuda aos encarcerados à hospitalidade com os forasteiros. Segundo Pastor de Hermas, essa é a característica que faziam dos bispos homens santos e justos.
Em latim a união de miséria – insuficiência, grave angustia, falta de dignidade, estar à margem da vida humana; coração – somado a “miséria” conota a miséria próxima do coração, sentida no coração. E tem como raiz: urere (queimar) – a miséria que queima no coração.
Fica-nos, claro, assim, expressar que Misericórdia traduz também um ato, é uma doutrina viva: o criador olha a criatura com misericórdia, reclina-se até ela, a socorre e anula no seu coração toda sua miséria. (Cristo, o rosto da misericórdia do Pai)
5. Mas, Misericórdia não é apenas um termo, é doutrina viva, pois somos todos convocados à Misericórdia...
Desde seu nascimento, no Batismo, os cristãos são convocados à misericórdia!
No tempo dos santos padres, os catecúmenos introduzidos à oração do Pai Nosso eram por ele educados para a misericórdia.
A convivência, a misericórdia recíproca, a realidade comum, a compreensão da vida comum era um sinal da misericórdia divina, pois um mal não recairia mais sobre um só – livrai-nos do mal... No tempos dos Padres essa era uma condição para a vivência da experiência pós-batismal.
A comunidade se descobria pecadora e, juntos, todos rezavam: Perdoai-nos as nossas ofensas...
A Misericórdia vivida fomentava a partilha de bens, que beneficiava não só os mais pobres mas, também, Igrejas irmãs. Inúmeros testemunhos relatam a caridade da Igreja romana à Igreja da Síria, da Arábia...
A esmola, com isso se torna, para a comunidade cristã, o sinal da misericórdia. Segundo Tertuliano, ela faz o cristão superior ao pagão.
De fato era comum na era antiga, os bispos com suas comunidades serem responsáveis diretos por inúmeras obras de caridade, que iam desde a ajuda aos encarcerados à hospitalidade com os forasteiros. Segundo Pastor de Hermas, essa é a característica que faziam dos bispos homens santos e justos.
Assim, de Orígenes a Agostinho de Hipona, a caridade traduz-se em uma
contemplação direta a Deus, como ato de misericórdia que imita a oblação
reparadora de Cristo, que em si, como afirma Cirilo de Alexandria, revela que a
Misericórdia é um atributo da própria natureza divina, visto que Cristo em inúmeras
vezes sente o Raramin (compaixão) pelas pessoas e multidões que o seguiam. Mata
sua fome com cinco pães e dois peixinhos. Chegando à alegoria de que os cinco pães
e dois peixes que alimentaram a Multiplicação, representariam os Cinco Livros da Lei
e que os dois peixes representariam São João e os Profetas, bem como a Eucaristia
ou os Sacramentos.
Ainda é comum a todos os padres da Igreja a interpretação que se trata de um Sinal Messiânico, o Milagre da Misericórdia de Cristo. E como ainda sobram 12 cestos, Cirilo de Alexandria postula: a Misericórdia é recompensada e ninguém pode dizer que não tem o que oferecer...
O padres assumem um viés eclesial na interpretação dos atos misericordiosos de Jesus: a Esposa de Cristo tem um papel fundamental frente aos dramas vitais e existenciais de todos os seres humanos.
Assim, depois de receber a Misericórdia há sempre um compromisso:
Por exemplo, na libertação do endemôniado Geraseno – (o da Legião), o Senhor confere-lhe uma missão:
ANUNCIA TUDO O QUE O SENHOR, NA SUA MISERICÓRDIA, FEZ EM TI (Mc 5,19) é unânime, nos santos padres, que é dever de todos que receberam a misericórdia de
Deus, difundir Seu Reino.
Na Parábola do Bom Samaritano, também muito comentada pelos Padres,
ressalta-se aqui o Bispo de Hipona, que identifica o Cristo ao Bom Samaritano da humanidade.
Nas Parábolas da Misericórdia (Lc 15), igualmente o Pecador é tratado com paciência e produz alegria com sua volta, com o achado que jaz perdido etc... Ainda Ambrósio postula que Deus nos ouve (ouve o nosso “cair em si”) antes mesmo de retornarmos, e corre alegre ao nosso encontro.
Também, é deveras emblemático para o Padres, o diálogo de Cristo com Pedro, quando nos é dada a MEDIDA DA MISERICÓRDIA, comenta o padre Cromácio de Aquileia:
“perdoar sem medida é a garantia de sermos perdoados sem medida”
Reforça esta tese a Parábola do “senhor” que perdoou a grande dívida do servo:
Ainda é comum a todos os padres da Igreja a interpretação que se trata de um Sinal Messiânico, o Milagre da Misericórdia de Cristo. E como ainda sobram 12 cestos, Cirilo de Alexandria postula: a Misericórdia é recompensada e ninguém pode dizer que não tem o que oferecer...
O padres assumem um viés eclesial na interpretação dos atos misericordiosos de Jesus: a Esposa de Cristo tem um papel fundamental frente aos dramas vitais e existenciais de todos os seres humanos.
Assim, depois de receber a Misericórdia há sempre um compromisso:
Por exemplo, na libertação do endemôniado Geraseno – (o da Legião), o Senhor confere-lhe uma missão:
ANUNCIA TUDO O QUE O SENHOR, NA SUA MISERICÓRDIA, FEZ EM TI (Mc 5,19) é unânime, nos santos padres, que é dever de todos que receberam a misericórdia de
Deus, difundir Seu Reino.
Na Parábola do Bom Samaritano, também muito comentada pelos Padres,
ressalta-se aqui o Bispo de Hipona, que identifica o Cristo ao Bom Samaritano da humanidade.
Nas Parábolas da Misericórdia (Lc 15), igualmente o Pecador é tratado com paciência e produz alegria com sua volta, com o achado que jaz perdido etc... Ainda Ambrósio postula que Deus nos ouve (ouve o nosso “cair em si”) antes mesmo de retornarmos, e corre alegre ao nosso encontro.
Também, é deveras emblemático para o Padres, o diálogo de Cristo com Pedro, quando nos é dada a MEDIDA DA MISERICÓRDIA, comenta o padre Cromácio de Aquileia:
“perdoar sem medida é a garantia de sermos perdoados sem medida”
Reforça esta tese a Parábola do “senhor” que perdoou a grande dívida do servo:
“Não devias também ter compaixão do teu companheiro como eu tive de ti?... É
assim que procederá convosco o meu Pai que está no Céu, se cada um não
perdoar do fundo do coração seu irmão”
(Mt 18, 33-35)
Ou o próprio Pai Nosso:
Perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6, 12)
6. Aliás, o Pai Nosso é considerado pelos padres a oração da Misericórdia. A tradição latina encontra na Oração do Pai-Nosso a matéria prima da formação eclesial do catecúmeno (Lembrar do atual RICA, que entrega antes).
O rito da Entrega e a Recitação decorada faziam parte do caminho pós- Batismal, seu objetivo era ajudar o novo cristão a viver a união com o Pai, com os irmãos e observar a Fé professada no Símbolo.
A confiança do catecúmeno na oração comunitária do “Perdoai-nos as nossas ofensas” era a maneira de ensinar a sensibilidade cotidiana do mutuo perdão e que o Pai jamais nos abandona... O binômio generosidade (batismal)/clemência (pelo perdão dos pecados adquiridos depois) – faziam parte do modus operandi da comunidade cristã.
7. A Liturgia, como expressão da comunidade é fonte da Misericórdia. Pois, toda liturgia transmite, vive, convida e celebra a Misericórdia!
Participamos de Cristo, sua morte e ressurreição. No Tríduo Pascal, lavamos os pés, tocando no pecador, participamos na morte de Jesus da morte de cada inocente. Na sua paixão vivemos o “já, ainda não” – da teologia paulina - a comunhão do Santos (ainda hoje estarás comigo no paraíso, diz o Cristo a São Dimas), professamos a fé solenemente acendendo a luz da Misericórdia, dAquele que desceu aos infernos levando a Misericórdia a nossos pais e os trouxe a luz...
Ou o próprio Pai Nosso:
Perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6, 12)
6. Aliás, o Pai Nosso é considerado pelos padres a oração da Misericórdia. A tradição latina encontra na Oração do Pai-Nosso a matéria prima da formação eclesial do catecúmeno (Lembrar do atual RICA, que entrega antes).
O rito da Entrega e a Recitação decorada faziam parte do caminho pós- Batismal, seu objetivo era ajudar o novo cristão a viver a união com o Pai, com os irmãos e observar a Fé professada no Símbolo.
A confiança do catecúmeno na oração comunitária do “Perdoai-nos as nossas ofensas” era a maneira de ensinar a sensibilidade cotidiana do mutuo perdão e que o Pai jamais nos abandona... O binômio generosidade (batismal)/clemência (pelo perdão dos pecados adquiridos depois) – faziam parte do modus operandi da comunidade cristã.
7. A Liturgia, como expressão da comunidade é fonte da Misericórdia. Pois, toda liturgia transmite, vive, convida e celebra a Misericórdia!
Participamos de Cristo, sua morte e ressurreição. No Tríduo Pascal, lavamos os pés, tocando no pecador, participamos na morte de Jesus da morte de cada inocente. Na sua paixão vivemos o “já, ainda não” – da teologia paulina - a comunhão do Santos (ainda hoje estarás comigo no paraíso, diz o Cristo a São Dimas), professamos a fé solenemente acendendo a luz da Misericórdia, dAquele que desceu aos infernos levando a Misericórdia a nossos pais e os trouxe a luz...
8. SANTO AGOSTINHO: PREGADOR DA MISERICÓRDIA
Sentido em sua pele a graça da Misericórdia, escreve o livro “As Confissões”
aos 33 anos de idade, uma autobiografia de sua conversão. Tendo saído do ninho
antes de saber voar, afirma em uma de suas homilias falando da humildade em
acolher a Deus, afirma ser tocado pela misericórdia divina para ser de novo
levado ao ninho.
Segundo o Bispo de Hipona: Deus se dá a conhecer precisamente na Misericórdia, mas muitos homens deixam-se enganar pela razão, num emaranhado de raciocínios, devaneios e pseudoargumentos dos quais não pode sair... Somos reconhecidos por Deus, por sua Misericórdia, antes mesmo de conhecê-lo.
O grande mestre, postulou e influenciou, em sua teologia, a doutrina que a Misericórdia contem todo teor do cristianismo de Jesus e dos cristãos. Assim, o termo chave de sua teologia e filosofia, o coração, como um abismo, o mistério humano, a sua casa, o lugar de compreender-se, habitar-se...
A Luz da Fé penetra no abismo do coração humano e convida o homem a olhar para si com a luz de Deus, ou seja, com sua Misericórdia. Por isso, o Santo afirma que essa presença Deus cura o coração contrito, enquanto o homem toma consciência da voz de Deus, onde Deus é visto! – Na teologia lembramos do coração como lócus teológico – “lugar do encontro”.
Quando a misericórdia invade o coração do Homem, ele percebe que Deus está nele, e nisso ele se esvazia, sai de si mesmo e se aproxima de seu próprio mistério, da fraternidade humana e do próprio Deus. Assim, Agostinho deixa claro que a Misericórdia, com a Verdade e graça de Cristo, um dos caminhos para Deus se aproximar do mundo humano nas suas raízes mais profundas, e, daí, os caminhos de Deus podem ser convertidos em caminhos do homem. Pelo Misericórdia o agir humano renovado, nasce o dever cristão, a ética cristã.
No comentário aos Salmos, Agostinho aprofunda ainda mais a mistagogia da consolação de Deus ao coração humano. Deus tem misericórdia do justo e do pecador. Está sempre perto de quem tem coração contrito e não se abandona à sua fragilidade humana, por isso a pregação da Igreja tem como seu sujeito apresentar e viver misericórdia divina.
Segundo o Bispo de Hipona: Deus se dá a conhecer precisamente na Misericórdia, mas muitos homens deixam-se enganar pela razão, num emaranhado de raciocínios, devaneios e pseudoargumentos dos quais não pode sair... Somos reconhecidos por Deus, por sua Misericórdia, antes mesmo de conhecê-lo.
O grande mestre, postulou e influenciou, em sua teologia, a doutrina que a Misericórdia contem todo teor do cristianismo de Jesus e dos cristãos. Assim, o termo chave de sua teologia e filosofia, o coração, como um abismo, o mistério humano, a sua casa, o lugar de compreender-se, habitar-se...
A Luz da Fé penetra no abismo do coração humano e convida o homem a olhar para si com a luz de Deus, ou seja, com sua Misericórdia. Por isso, o Santo afirma que essa presença Deus cura o coração contrito, enquanto o homem toma consciência da voz de Deus, onde Deus é visto! – Na teologia lembramos do coração como lócus teológico – “lugar do encontro”.
Quando a misericórdia invade o coração do Homem, ele percebe que Deus está nele, e nisso ele se esvazia, sai de si mesmo e se aproxima de seu próprio mistério, da fraternidade humana e do próprio Deus. Assim, Agostinho deixa claro que a Misericórdia, com a Verdade e graça de Cristo, um dos caminhos para Deus se aproximar do mundo humano nas suas raízes mais profundas, e, daí, os caminhos de Deus podem ser convertidos em caminhos do homem. Pelo Misericórdia o agir humano renovado, nasce o dever cristão, a ética cristã.
No comentário aos Salmos, Agostinho aprofunda ainda mais a mistagogia da consolação de Deus ao coração humano. Deus tem misericórdia do justo e do pecador. Está sempre perto de quem tem coração contrito e não se abandona à sua fragilidade humana, por isso a pregação da Igreja tem como seu sujeito apresentar e viver misericórdia divina.
A misericórdia torna Deus providente, habilitado a estar próximo do
Homem e o homem o espera essa Misericórdia, enquanto também é chamado a
ser misericordioso com o próximo, unir-se ao outro, mesmo sem consanguinidade, por
ter recebido a misericórdia de Deus.
“O que nos faz próximos uns dos outros não é a parentela, mas a misericórdia” (S. A. de Hipona) E, dessa unidade do homem, que une homens novos, restaurados pela
misericórdia, é que nascem as obras de misericórdia, as tais que produzem justiça.
Para Santo Agostinho, a Misericórdia, em suma, é uma das maiores mediações que permite o homem conhecer a si mesmo e aos mistério de sua própria humanidade que o une a Deus. (Texto na sequência)
“Ó Deus grande, ó Deus onipotente, ó Deus bondade suprema, prostro-me suplicante perante ti, escuta minha oração. Agora que experimentei a Tua misericórdia, não permitas que aqueles com quem vivi desde a minha meninice, como se tivéssemos um só coração, seja separados de mim no culto a ti devido” (S. A. de Hipona)
9. Aprofundando o Tema em alguns textos Agostinianos
Para Agostinho a Misericórdia nada mais é que encher o coração com as misérias dos outros...
Quando teu coração é tocado e atingido pela miséria dos outros, então isso é misericórdia.(SA) A profunda ligação entre os seres humanos por natureza (pelo coração), interpreta Agostinho, é a condição de um ser membro do outro. E como nossa contingência humana é nossa ferida, a construção da comunhão, no falar e no agir
é, portanto, um ato de Misericórdia.
A doçura da Misericórdia
Mesmo na tribulação o Senhor nos trata com doçura, e assim deve ser o nosso agir uns para com os outros, e como um gesto de Amor Misericordioso, a primazia da graça concede-nos como ao filho pródigo o perdão antecipado,
“O que nos faz próximos uns dos outros não é a parentela, mas a misericórdia” (S. A. de Hipona) E, dessa unidade do homem, que une homens novos, restaurados pela
misericórdia, é que nascem as obras de misericórdia, as tais que produzem justiça.
Para Santo Agostinho, a Misericórdia, em suma, é uma das maiores mediações que permite o homem conhecer a si mesmo e aos mistério de sua própria humanidade que o une a Deus. (Texto na sequência)
“Ó Deus grande, ó Deus onipotente, ó Deus bondade suprema, prostro-me suplicante perante ti, escuta minha oração. Agora que experimentei a Tua misericórdia, não permitas que aqueles com quem vivi desde a minha meninice, como se tivéssemos um só coração, seja separados de mim no culto a ti devido” (S. A. de Hipona)
9. Aprofundando o Tema em alguns textos Agostinianos
Para Agostinho a Misericórdia nada mais é que encher o coração com as misérias dos outros...
Quando teu coração é tocado e atingido pela miséria dos outros, então isso é misericórdia.(SA) A profunda ligação entre os seres humanos por natureza (pelo coração), interpreta Agostinho, é a condição de um ser membro do outro. E como nossa contingência humana é nossa ferida, a construção da comunhão, no falar e no agir
é, portanto, um ato de Misericórdia.
A doçura da Misericórdia
Mesmo na tribulação o Senhor nos trata com doçura, e assim deve ser o nosso agir uns para com os outros, e como um gesto de Amor Misericordioso, a primazia da graça concede-nos como ao filho pródigo o perdão antecipado,
despindo-nos das vestes que Adão havia deixado como herança pelo Pecado e
resgatando-nos pela Esperança da eternidade. O Anel, penhor do Espírito Santo
e as sandálias como prontidão para o Anúncio.
Cristo é a Misericórdia, o irmão mais velho, que vai em busca do mais novo, resgata-o com seu sangue e o reconduz à Casa do Pai... (Pensamento própio)
No Samaritano...
Também na figura do Samaritano, restaura nossa Natureza e inteligência. O piedoso desce para curar nossas feridas, lava-nos com vinho (sangue) e na estalagem, a Igreja, somos deixados aos cuidados do Espírito Santo até sua volta definitiva.
Na Mulher adultera...
Diferente dos outros que fugiram, no caso da Mulher Adultera, ela permaneceu porque reconheceu Cristo como médico de suas feridas, diferente dos demais que fugiram... Como no Salmo “davínico” ela reconheceu:
Eu reconheço toda a minha iniquidade e o meu pecado esta sempre à minha frente. (Cf. Salmo 50 (51))
Ficando somente Ele e ela, o Criador e a criatura, ficou a miséria e a Misericórdia; ficou ela, consciente de seu pecado e Ele que lhe perdoava o pecado.
Os cristãos são membros do Corpo de Cristo misericordioso
A pertença batismal, nos indica que todos somos membros do corpo de Cristo. Na cruz a voz de Cristo:
Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?
As palavras dos meus pecados, são a voz de Cristo. E donde derivam então os pecados, senão do Corpo, que é a Igreja? Mesmo enquanto Cristo é um, escutamos a Cabeça como Cabeça e o Corpo como corpo. Na teologia agostiniada cabe à cabeça purificar o corpo, ao Corpo confessar os pecados, mas uma só é a voz, a voz de Cristo. Por isso, outras passagens como: eu tive fome e não me deste de comer.. É o corpo falando...Sede... Prisioneiro... Enfermo... Foi a mim que não fizeste!
Cristo é a Misericórdia, o irmão mais velho, que vai em busca do mais novo, resgata-o com seu sangue e o reconduz à Casa do Pai... (Pensamento própio)
No Samaritano...
Também na figura do Samaritano, restaura nossa Natureza e inteligência. O piedoso desce para curar nossas feridas, lava-nos com vinho (sangue) e na estalagem, a Igreja, somos deixados aos cuidados do Espírito Santo até sua volta definitiva.
Na Mulher adultera...
Diferente dos outros que fugiram, no caso da Mulher Adultera, ela permaneceu porque reconheceu Cristo como médico de suas feridas, diferente dos demais que fugiram... Como no Salmo “davínico” ela reconheceu:
Eu reconheço toda a minha iniquidade e o meu pecado esta sempre à minha frente. (Cf. Salmo 50 (51))
Ficando somente Ele e ela, o Criador e a criatura, ficou a miséria e a Misericórdia; ficou ela, consciente de seu pecado e Ele que lhe perdoava o pecado.
Os cristãos são membros do Corpo de Cristo misericordioso
A pertença batismal, nos indica que todos somos membros do corpo de Cristo. Na cruz a voz de Cristo:
Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?
As palavras dos meus pecados, são a voz de Cristo. E donde derivam então os pecados, senão do Corpo, que é a Igreja? Mesmo enquanto Cristo é um, escutamos a Cabeça como Cabeça e o Corpo como corpo. Na teologia agostiniada cabe à cabeça purificar o corpo, ao Corpo confessar os pecados, mas uma só é a voz, a voz de Cristo. Por isso, outras passagens como: eu tive fome e não me deste de comer.. É o corpo falando...Sede... Prisioneiro... Enfermo... Foi a mim que não fizeste!
E daí se justificam as obras de Misericórdia corporais... E não ficará sem
misericórdia aquele que foi misericordioso...(Pensamento próprio)
A misericórdia e o juízo da consciência
A Trindade derramada em nossos corações
Conclusão
Os Ministros da Igreja são ministros da misericórdia
Uma Igreja em Saída, como o Pai Misericordioso... (Santo Ambrósio)
Uma Igreja que sai como o Pai ao encontro do filho, que se distancia do irmão mais velho de Lucas 15, mas imita o “irmão mais velho que é Cristo” e dá seu sangue para resgatar e reconduzir o prodigo à casa do Pai das Misericórdias...(Vide Oração Sacerdotal do Evangelho de São João)
A misericórdia e o juízo da consciência
A Trindade derramada em nossos corações
Conclusão
Os Ministros da Igreja são ministros da misericórdia
Uma Igreja em Saída, como o Pai Misericordioso... (Santo Ambrósio)
Uma Igreja que sai como o Pai ao encontro do filho, que se distancia do irmão mais velho de Lucas 15, mas imita o “irmão mais velho que é Cristo” e dá seu sangue para resgatar e reconduzir o prodigo à casa do Pai das Misericórdias...(Vide Oração Sacerdotal do Evangelho de São João)
E que assim, seja... Muito Obrigado.