Padre Marcio Tadeu
quinta-feira, 7 de julho de 2016
quarta-feira, 9 de março de 2016
O Padres da Igreja e a Misericórdia
Texto, em forma de discurso livre, proferido na conferência da manhã de espiritualidade quaresmal, na Catedral de São José - São José do Rio Preto, em 09 de Março de 2016.
Fontes:
Bíblia Sagrada
CPPNE. Os padres da Igreja e a Misericórdia. São Paulo: Paulinas/Paulus, 2015 SESBOUÉ, Bernard. O Deus da Salvação - História dos Dogmas – Tomo I. São Paulo: Loyola, 2012
Bom dia, Senhor Bispo, amados irmãos no sacerdócio, religiosos, religiosas e fiéis presentes nesta manhã de graça, no qual o Senhor nos preparou para, revisitar, ainda mais profundamente o seu amor, a sua misericórdia, que tema da nossa reflexão.
Procurando facilitar nossa reflexão partiremos da realidade que nos cerca, a experiência do hodierno, o evento Cristo e o estilo de vida cristão, os desafios impostos pela cultura no tempo patrístico (e de hoje), as Sagradas Escrituras - perene fonte da revelação, uma breve etimologia da palavra Misericórdia. A grande convocação a experimentar a Misericórdia e a ser misericordiosos... A fonte da Misericórdia na Liturgia e um breve aprofundamento na teologia da Misericórdia de Santo Agostinho.
Introdução
Parece-me bem claro que vivemos um tempo de intolerância. As instituições feridas e enfraquecidas, os poucos heróis de hoje mostram menos sua força de caráter e mais seus devaneios. O projeto de país mais igualitário se mostrou mais populista do que verdadeiramente do Povo.
A maioria dos brasileiros liga sua televisão, ao final do dia de trabalho, e encontra-se diante de julgamentos sumários - um helicóptero encena uma perseguição “hollywoodiana” e o apresentador força uma presunção de culpa imediata. Segue noite a dentro os telejornais insistindo que a corrupção pertence a um único partido. O desejo de eliminá-lo parece a solução e talvez se compare sentimento religioso sacerdotal que garantia que a morte de “Um” daria fim à todas a revoltas na Palestina.
Na contexto da América Latina, “navegando” pelo Documento de Aparecida chegamos a perceber que ora fugimos para uma interpretação supra libertadora, quando a Libertação principal desaparece, ora embrenhamo-nos num falido proselitismo corporativo, próprio da Idade Média – uma Pastoral de manutenção.
Parece que o exemplo do Pontífice do “fim do mundo”, que se inspira no “il povero de Assisi”, o mais conhecido santo da Úmbria – que é centro do mundo na Idade antiga, Francisco, ecoa a voz profética para uma Igreja em saída e, se é possível resumir seu pontificado, afirmaria: Misericordia in vultum Ecclesiae est – A Misericórdia é, e sempre foi, o rosto da Igreja.
Por isso, a solução é revisitar nosso estilo de vida próprio: a Misericórdia!
1. Então, partimos da certeza que a Misericórdia é o verdadeiro fio condutor que liga a história da comunidade cristã, é o “estilo de vida” próprio do cristão.
Santos, gerações e gerações de mártires, desde de a origem da Igreja e, de maneira especial nos Padres da Igreja, dão forma a esse estilo cristão de ser com seu testemunho e se esforçam em explicá-lo.
Ser misericordiosos como o Pai (cf. Lc. 6, 36) é a tradução da verdadeira perfeição e da Santidade e, portanto, o caminho do seguimento de Cristo para os santos padres.
Acrescento: o mesmo Evangelho da misericórdia é um compromisso da Igreja nos tempos atuais e, por isso, a necessidade de entendê-la a partir dos Padres e da Tradição.
2. Não distante da nossa realidade, o padres encontraram, diante de sua missão, um mundo não cristão...
Como ainda há, sempre houve grande controvérsia no encontro da misericórdia cristã com as culturas pagãs.
Se visitarmos a cultura grega, encontraremos, especialmente nos poemas de Homero, a Misericórdia considerada como compaixão, “umas das virtudes mais nobres”, segundo o poeta, mesmo quando evocada num contexto de guerra, agindo assim para com seus inimigos, que não mantinham o sentimento recíproco.
Até no Século VII, final da era Patrística, o padre Isaac de Nínive, retomando o tema combatendo-o: “Se o misericordioso não superar a justiça, não é misericordioso”
Na retórica aristotélica acreditava-se na idéia que a misericórdia é a compaixão que uma pessoa tem por ter passado por um sofrimento sem merecê-lo, por isso se solidarizaria com aquele que sofre injustamente.
Cícero, vezes lembrado por Santo Agostinho e por outros Padres latinos, se aproxima do pensamento estóico (misericórdia=irracionalidade), mas tem respeito pelo homens misericordiosos.
Em contraponto, outras vozes patrísticas afirmam que o homem, criado a semelhança de Deus, tendo-se parecido mais com o inimigo, mesmo assim, Jesus assumiu, por misericórdia, a imagem do homem, vindo para junto dele, piedosa e misericordiosamente, expressa o doutor alexandrino Orígenes, que há de se lembrar que enunciou a heresia da impassibilidade(apatia) divina.
Em um texto correlato, de uma homilia patrística do Sábado Santo cujo autor é desconhecido, segue uma fala alegórica de Jesus: Vê no meu rosto as bofetadas que suportei para restaurar à minha semelhança a tua imagem corrompida.
3. A fonte de toda vida cristã, as Sagradas Escritura inspira e ilumina a vida da comunidade, que age, reza, celebra sob suas indicações é o mote da reflexão patrística.
Nessa dinâmica, o Deus bíblico aparece com frequência como “paciente e misericordioso” que esquece os castigos merecidos pelos infiéis...
Hereges, como Marcião, afirmavam que o Deus cruel do Antigo Testamento não podia ser o Pai de Jesus, tese que foi rebatida na afirmação da “Bondade Eterna de Deus” de Tertuliano, nos colóquios contra Marcião. (para aprofundar vide SESBOUÉ, Bernard. O Deus da Salvação - História dos Dogmas – Tomo I. São Paulo: Loyola, 2012)
Em latim a união de miséria – insuficiência, grave angustia, falta de dignidade, estar à margem da vida humana; coração – somado a “miséria” conota a miséria próxima do coração, sentida no coração. E tem como raiz: urere (queimar) – a miséria que queima no coração.
Fica-nos, claro, assim, expressar que Misericórdia traduz também um ato, é uma doutrina viva: o criador olha a criatura com misericórdia, reclina-se até ela, a socorre e anula no seu coração toda sua miséria. (Cristo, o rosto da misericórdia do Pai)
5. Mas, Misericórdia não é apenas um termo, é doutrina viva, pois somos todos convocados à Misericórdia...
Desde seu nascimento, no Batismo, os cristãos são convocados à misericórdia!
No tempo dos santos padres, os catecúmenos introduzidos à oração do Pai Nosso eram por ele educados para a misericórdia.
A convivência, a misericórdia recíproca, a realidade comum, a compreensão da vida comum era um sinal da misericórdia divina, pois um mal não recairia mais sobre um só – livrai-nos do mal... No tempos dos Padres essa era uma condição para a vivência da experiência pós-batismal.
A comunidade se descobria pecadora e, juntos, todos rezavam: Perdoai-nos as nossas ofensas...
A Misericórdia vivida fomentava a partilha de bens, que beneficiava não só os mais pobres mas, também, Igrejas irmãs. Inúmeros testemunhos relatam a caridade da Igreja romana à Igreja da Síria, da Arábia...
A esmola, com isso se torna, para a comunidade cristã, o sinal da misericórdia. Segundo Tertuliano, ela faz o cristão superior ao pagão.
De fato era comum na era antiga, os bispos com suas comunidades serem responsáveis diretos por inúmeras obras de caridade, que iam desde a ajuda aos encarcerados à hospitalidade com os forasteiros. Segundo Pastor de Hermas, essa é a característica que faziam dos bispos homens santos e justos.
Ainda é comum a todos os padres da Igreja a interpretação que se trata de um Sinal Messiânico, o Milagre da Misericórdia de Cristo. E como ainda sobram 12 cestos, Cirilo de Alexandria postula: a Misericórdia é recompensada e ninguém pode dizer que não tem o que oferecer...
O padres assumem um viés eclesial na interpretação dos atos misericordiosos de Jesus: a Esposa de Cristo tem um papel fundamental frente aos dramas vitais e existenciais de todos os seres humanos.
Assim, depois de receber a Misericórdia há sempre um compromisso:
Por exemplo, na libertação do endemôniado Geraseno – (o da Legião), o Senhor confere-lhe uma missão:
ANUNCIA TUDO O QUE O SENHOR, NA SUA MISERICÓRDIA, FEZ EM TI (Mc 5,19) é unânime, nos santos padres, que é dever de todos que receberam a misericórdia de
Deus, difundir Seu Reino.
Na Parábola do Bom Samaritano, também muito comentada pelos Padres,
ressalta-se aqui o Bispo de Hipona, que identifica o Cristo ao Bom Samaritano da humanidade.
Nas Parábolas da Misericórdia (Lc 15), igualmente o Pecador é tratado com paciência e produz alegria com sua volta, com o achado que jaz perdido etc... Ainda Ambrósio postula que Deus nos ouve (ouve o nosso “cair em si”) antes mesmo de retornarmos, e corre alegre ao nosso encontro.
Também, é deveras emblemático para o Padres, o diálogo de Cristo com Pedro, quando nos é dada a MEDIDA DA MISERICÓRDIA, comenta o padre Cromácio de Aquileia:
“perdoar sem medida é a garantia de sermos perdoados sem medida”
Reforça esta tese a Parábola do “senhor” que perdoou a grande dívida do servo:
Ou o próprio Pai Nosso:
Perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6, 12)
6. Aliás, o Pai Nosso é considerado pelos padres a oração da Misericórdia. A tradição latina encontra na Oração do Pai-Nosso a matéria prima da formação eclesial do catecúmeno (Lembrar do atual RICA, que entrega antes).
O rito da Entrega e a Recitação decorada faziam parte do caminho pós- Batismal, seu objetivo era ajudar o novo cristão a viver a união com o Pai, com os irmãos e observar a Fé professada no Símbolo.
A confiança do catecúmeno na oração comunitária do “Perdoai-nos as nossas ofensas” era a maneira de ensinar a sensibilidade cotidiana do mutuo perdão e que o Pai jamais nos abandona... O binômio generosidade (batismal)/clemência (pelo perdão dos pecados adquiridos depois) – faziam parte do modus operandi da comunidade cristã.
7. A Liturgia, como expressão da comunidade é fonte da Misericórdia. Pois, toda liturgia transmite, vive, convida e celebra a Misericórdia!
Participamos de Cristo, sua morte e ressurreição. No Tríduo Pascal, lavamos os pés, tocando no pecador, participamos na morte de Jesus da morte de cada inocente. Na sua paixão vivemos o “já, ainda não” – da teologia paulina - a comunhão do Santos (ainda hoje estarás comigo no paraíso, diz o Cristo a São Dimas), professamos a fé solenemente acendendo a luz da Misericórdia, dAquele que desceu aos infernos levando a Misericórdia a nossos pais e os trouxe a luz...
Segundo o Bispo de Hipona: Deus se dá a conhecer precisamente na Misericórdia, mas muitos homens deixam-se enganar pela razão, num emaranhado de raciocínios, devaneios e pseudoargumentos dos quais não pode sair... Somos reconhecidos por Deus, por sua Misericórdia, antes mesmo de conhecê-lo.
O grande mestre, postulou e influenciou, em sua teologia, a doutrina que a Misericórdia contem todo teor do cristianismo de Jesus e dos cristãos. Assim, o termo chave de sua teologia e filosofia, o coração, como um abismo, o mistério humano, a sua casa, o lugar de compreender-se, habitar-se...
A Luz da Fé penetra no abismo do coração humano e convida o homem a olhar para si com a luz de Deus, ou seja, com sua Misericórdia. Por isso, o Santo afirma que essa presença Deus cura o coração contrito, enquanto o homem toma consciência da voz de Deus, onde Deus é visto! – Na teologia lembramos do coração como lócus teológico – “lugar do encontro”.
Quando a misericórdia invade o coração do Homem, ele percebe que Deus está nele, e nisso ele se esvazia, sai de si mesmo e se aproxima de seu próprio mistério, da fraternidade humana e do próprio Deus. Assim, Agostinho deixa claro que a Misericórdia, com a Verdade e graça de Cristo, um dos caminhos para Deus se aproximar do mundo humano nas suas raízes mais profundas, e, daí, os caminhos de Deus podem ser convertidos em caminhos do homem. Pelo Misericórdia o agir humano renovado, nasce o dever cristão, a ética cristã.
No comentário aos Salmos, Agostinho aprofunda ainda mais a mistagogia da consolação de Deus ao coração humano. Deus tem misericórdia do justo e do pecador. Está sempre perto de quem tem coração contrito e não se abandona à sua fragilidade humana, por isso a pregação da Igreja tem como seu sujeito apresentar e viver misericórdia divina.
“O que nos faz próximos uns dos outros não é a parentela, mas a misericórdia” (S. A. de Hipona) E, dessa unidade do homem, que une homens novos, restaurados pela
misericórdia, é que nascem as obras de misericórdia, as tais que produzem justiça.
Para Santo Agostinho, a Misericórdia, em suma, é uma das maiores mediações que permite o homem conhecer a si mesmo e aos mistério de sua própria humanidade que o une a Deus. (Texto na sequência)
“Ó Deus grande, ó Deus onipotente, ó Deus bondade suprema, prostro-me suplicante perante ti, escuta minha oração. Agora que experimentei a Tua misericórdia, não permitas que aqueles com quem vivi desde a minha meninice, como se tivéssemos um só coração, seja separados de mim no culto a ti devido” (S. A. de Hipona)
9. Aprofundando o Tema em alguns textos Agostinianos
Para Agostinho a Misericórdia nada mais é que encher o coração com as misérias dos outros...
Quando teu coração é tocado e atingido pela miséria dos outros, então isso é misericórdia.(SA) A profunda ligação entre os seres humanos por natureza (pelo coração), interpreta Agostinho, é a condição de um ser membro do outro. E como nossa contingência humana é nossa ferida, a construção da comunhão, no falar e no agir
é, portanto, um ato de Misericórdia.
A doçura da Misericórdia
Mesmo na tribulação o Senhor nos trata com doçura, e assim deve ser o nosso agir uns para com os outros, e como um gesto de Amor Misericordioso, a primazia da graça concede-nos como ao filho pródigo o perdão antecipado,
Cristo é a Misericórdia, o irmão mais velho, que vai em busca do mais novo, resgata-o com seu sangue e o reconduz à Casa do Pai... (Pensamento própio)
No Samaritano...
Também na figura do Samaritano, restaura nossa Natureza e inteligência. O piedoso desce para curar nossas feridas, lava-nos com vinho (sangue) e na estalagem, a Igreja, somos deixados aos cuidados do Espírito Santo até sua volta definitiva.
Na Mulher adultera...
Diferente dos outros que fugiram, no caso da Mulher Adultera, ela permaneceu porque reconheceu Cristo como médico de suas feridas, diferente dos demais que fugiram... Como no Salmo “davínico” ela reconheceu:
Eu reconheço toda a minha iniquidade e o meu pecado esta sempre à minha frente. (Cf. Salmo 50 (51))
Ficando somente Ele e ela, o Criador e a criatura, ficou a miséria e a Misericórdia; ficou ela, consciente de seu pecado e Ele que lhe perdoava o pecado.
Os cristãos são membros do Corpo de Cristo misericordioso
A pertença batismal, nos indica que todos somos membros do corpo de Cristo. Na cruz a voz de Cristo:
Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?
As palavras dos meus pecados, são a voz de Cristo. E donde derivam então os pecados, senão do Corpo, que é a Igreja? Mesmo enquanto Cristo é um, escutamos a Cabeça como Cabeça e o Corpo como corpo. Na teologia agostiniada cabe à cabeça purificar o corpo, ao Corpo confessar os pecados, mas uma só é a voz, a voz de Cristo. Por isso, outras passagens como: eu tive fome e não me deste de comer.. É o corpo falando...Sede... Prisioneiro... Enfermo... Foi a mim que não fizeste!
A misericórdia e o juízo da consciência
A Trindade derramada em nossos corações
Conclusão
Os Ministros da Igreja são ministros da misericórdia
Uma Igreja em Saída, como o Pai Misericordioso... (Santo Ambrósio)
Uma Igreja que sai como o Pai ao encontro do filho, que se distancia do irmão mais velho de Lucas 15, mas imita o “irmão mais velho que é Cristo” e dá seu sangue para resgatar e reconduzir o prodigo à casa do Pai das Misericórdias...(Vide Oração Sacerdotal do Evangelho de São João)
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A sexualidade humana no contexto homem-mulher, co-participantes da criação divina
Amigos, paz!
Este texto foi apresentado em preparação à Semana de Prevenção das DST/AIDS que será organizada pela Pastoral da Saúde da Paróquia segundo as orientações da CNBB.
No dia dessa conferência (26/10//10), contamos com inúmeros membros de outras pastorais, além dos agentes da Pastoral da Saúde.
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A sexualidade humana no contexto homem-mulher, co-participantes da criação divina
Pe. Marcio Tadeu
Quando reportamos nossa reflexão à sexualidade, refletimos, na verdade, o dinamismo do Amor, a maneira como a comunicação criadora se manifesta nos limites da criação. A sexualidade representa uma dimensão original do homem e, por isso, é importante refleti-la com mais intensidade.
Assim, partimos da criação do homem-mulher, que é um ser complexo, como todos os outros seres criados, e não pode ser reduzido à simplicidade do Criador, pois se manifesta polarizado (homem-mulher), dentro da unidade criadora.
Tem-se, então, que a relação que quebra a polarização e aproxima os seres humanos na imitação da divindade é o encontro, a sexualidade, que possibilita ao homem imitar, dentro dos limites de criatura, a perfeita comunicação entre as pessoas da SS.ma Trindade.
O levantamento do autor sagrado do livro do Gênesis aponta a semelhança do homem-mulher a Deus, e pode facilitar nossa compreensão da sexualidade como na tese acima. Mas, por um lado, pode decorrer em grande engano, pois, mesmo semelhantes ao Criador, entre nós e Deus há um abismo intransponível, como entre o tudo e o nada.
Contudo, a relação entre Deus e a criatura se apresenta como um "eco" da relação interna, da SS.ma Trindade, que se caracteriza numa íntima fecundidade. O Próprio Espírito Santo vem em auxilio do homem-mulher para recompor a imagem teleológica impressa na criação por Deus e restabelecer a fecundidade trinitária na práxis (existência deontológica).
Para que isso verdadeiramente aconteça, o homem-mulher deve assumir constitutivamente o amor dentro da vontade divina, a fim de realizá-la em plenitude, possibilitando que homem e mulher se encontrem como imagem e contra-imagem e vice-versa, e se realizem na semelhança criadora.
Do interior da natureza humana emerge a diferenciação sexual, que constitui no homem-mulher uma unidade dual. Ninguém é feito separadamente, juntos, homem e mulher devem se realizar e celebrar sua imago Dei (teleológico). Por isso, o homem e a mulher não podem deixar de tender-se um ao outro (deontológico). A sexualidade é uma tensão colocada pelo próprio Criador que oportuniza a experiência relacional na humanidade, e faz brotar a fecundidade co-criadora do homem-mulher (dimensão unitiva-reprodutiva).
Ainda, é importante ressaltar que a união sexual elimina a experiência da criatura em si, inata no ser humano. Esta união revela a obrigação do "sair de si" e, dentro da ordenação criadora, encontrar-se com sua contra-imagem para, assim, celebrar o amor trinitário na condição de criatura (dimensão sacramental).
A compreensão do mistério da fecundidade humana reflete a qualidade da fecundidade divina, que cria o novo. O ser humano, deferente dos animais e plantas, porque produz, em sua fecundidade, algo singular, irrepetível, outro ser humano, imagem e semelhança de Deus.
Partindo dessa compreensão, leva-se luz às trevas equivocadas que muitos cristãos criam acerca do pecado original, acreditando que ele estaria ligado ao ato sexual de Adão e Eva. O encontro sexual homem-mulher faz com que eles se aproximem da qualidade divina da criação, tornando-os co-criadores.
Ao repensar nossa vida aos moldes do criador, devemos ver como anda nossa sexualidade. Hoje, ela parece não estar mais vigorosamente envolvida pela totalidade da criação divina, já que, na maioria das vezes, tem sido confundida apenas com o ato sexual. Desta forma, o ato humano de comunicação plena, fornecido a nós por Graça, que deveria ser eco da relação inter-Trinitária, fica reduzido ao estado de vontade, poder e dominação, “coisificante”.
Deus nos chama a redimir a nossa sexualidade e, conseqüentemente, toda sexualidade humana. O sacramento do matrimônio manifesta essa redenção unitiva e reprodutiva, pois imita o mistério do casamento de Cristo com a Igreja. Por isso, homem e mulher devem viver esse mistério, e contemplá-lo em sua totalidade a fim de encontrar a plenitude de sua sexualidade, o Amor.
SELEÇÃO CARTA ENCÍCLICA “HUMANAE VITAE”
Paulo, PP. VI
Inseparáveis os dois aspectos: união e procriação
12. Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, está fundada sobre a conexão inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador.
Na verdade, pela sua estrutura íntima, o ato conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher. Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e a sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade. Nós pensamos que os homens do nosso tempo estão particularmente em condições de apreender o caráter profundamente razoável e humano deste princípio fundamental.
AOS SACERDOTES
28. Diletos filhos sacerdotes, que por vocação sois os conselheiros e guias espirituais das pessoas e das famílias, dirigimo-nos agora a vós, com confiança. A vossa primeira tarefa - especialmente para os que ensinam a teologia moral - é expor, sem ambigüidades, os ensinamentos da Igreja acerca do matrimônio. Sede, pois, os primeiros a dar exemplo, no exercício do vosso ministério, de leal acatamento, interno e externo, do Magistério da Igreja. Tal atitude obsequiosa, bem o sabeis, é obrigatória não só em virtude das razões aduzidas, mas sobretudo por motivo da luz do Espírito Santo, da qual estão particularmente dotados os Pastores da Igreja, para ilustrarem a verdade.(39) Sabeis também que é da máxima importância, para a paz das consciências e para a unidade do povo cristão, que, tanto no campo da moral como no do dogma, todos se atenham ao Magistério da Igreja e falem a mesma linguagem. Por isso, com toda a nossa alma, vos repetimos o apelo do grande Apóstolo São Paulo: "Rogo-vos, irmãos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos o mesmo e que entre vós não haja divisões, mas que estejais todos unidos, no mesmo espírito e no mesmo parecer".(40)
29. Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de caridade eminente para com as almas. Mas, isso deve andar sempre acompanhado também de paciência e de bondade, de que o mesmo Senhor deu o exemplo, ao tratar com os homens. Tendo vindo para salvar e não para julgar,(41) Ele foi intransigente com o mal, mas misericordioso para com os homens.
No meio das suas dificuldades, que os cônjuges encontrem sempre na palavra e no coração do sacerdote o eco fiel da voz e do amor do Redentor.
Falai, pois, com confiança, diletos Filhos, bem convencidos de que o Espírito de Deus, ao mesmo tempo que assiste o Magistério no propor a doutrina, ilumina também internamente os corações dos fiéis, convidando-os a prestar-lhe o seu assentimento. Ensinai aos esposos o necessário caminho da oração, preparai-os para recorrerem com freqüência e com fé aos sacramentos da Eucaristia e da Penitência, sem se deixarem jamais desencorajar pela sua fraqueza.
Bibliografia
SCOLA, Angelo Card. O Mistério Nupcial. Bauru: Edusc, 2003
PAULO VI. Carta Encíclica Humane Vitae – sobre a regulação da natalidade. São Paulo: Paulinas, 2007
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
XIII SIMPÓSIO DE GENÉTICA - IBILCE/UNESP
Resumo: A engenharia genética é uma poderosa ferramenta na modificação de organismos. Uma nova área conhecida como biologia sintética utiliza a engenharia genética através da recombinação de materiais genéticos de organismos existentes na natureza, criando organismos capazes de sintetizar uma variedade de compostos de interesse para o homem. Essa nova era na biotecnologia pode causar uma revolução nos processos industriais integrando as diversas áreas de conhecimento.
Participante 1: Padre Márcio Tadeu Reibert Alves de Camargo (Ex-integrante do Comitê de Ética em Pesquisa UNESP/São José do Rio Preto)
Participante 2: Prof. Dr. Raghuvir Krishnaswamy Arni (UNESP/ São José do Rio Preto)
Participante 3: Prof.ª Dr.ª Eny Maria Goloni Bertollo (FAMERP/São José do Rio Preto)
Moderador: M.Sc. Elias Alberto Gutierrez Carnelossie (UNESP/São José do Rio Preto)
Local: Auditório A
Links com informações sobre o tema da Roda Viva:
http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4154&bd=1&pg=1
http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u738110.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/738504-obama-pede-estudo-sobre-implicacoes-da-criacao-de-celula-sintetica.shtml
http://www.youtube.com/watch?v=QHIocNOHd7A&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=PqbA7YSrv7g&feature=related



